Não é inédito no Brasil o que, hoje, acontece na cidade do Rio de Janeiro. Recentemente, em maio de 2006, São Paulo sofreu algo parecido com ataques a policiais e rebeliões em presídios, promovidos pela organização criminosa "Primeiro Comando da Capital"(PCC). À época os ataques deram-se em represália, ou melhor, reação à transferência de líderes da quadrilha para um presídio de segurança máxima.
Tanto em 2006, nos episódios ocorridos em São Paulo, quanto agora em 2010, na onda de violência carioca, ouço dizer em "vácuo de poder". Ou seja, onde o Estado não consegue chegar com seu aparato social, o tráfico estabelece um poder paralelo. De fato, nas comunidades pobres do Rio, os traficantes são vistos como autoridades. Instituem milícias para a defesa de seu território. Recrutam novos milicianos entres os jovens marginalizados pela sociedade, sem oportunidades e sem perspectivas.
Porém, tal constatação não me faz concordar que existam "vácuos de poder". Existe conivência com o crime, omissão dos poderes constituídos. Não há organizações criminosas grandes sem vínculos com o Estado. É preciso desmascarar, revelar, quem são os representantes destas organizações nas polícias, nos parlamentos, nos governos e até mesmo no Judiciário. É preciso que o Brasil ouse como a Itália ousou combater a máfia, prendendo políticos, juízes policiais e quem mais fosse preciso.
Vácuo de poder não existe. Existem, sim, são poderosos corruptos. Uma engrenagem movida a dinheiro. Dinheiro que o traficante ganha e paga para manter seu domínio. Cazuza com muita sabedoria, nos anos oitenta, escreveu em uma canção: "Brasil, mostra tua cara. Quero ver quem paga pra gente ficar assim" ; e eu ainda diria, quero ver quem paga e quero ver quem recebe pra gente ficar assim.